“O intolerável gato por lebre”
Para fechar o ano de 2009, presenteio a todos com um texto produzido por um aluno meu da pós graduação em Marketing do UNI-BH (Belo Horizonte, Minas Gerais). Ele ilustra bem que o respeito ao consumidor é importante instrumento de marketing, além de ser fundamental no cotidiano.
“O intolerável gato por lebre
No Marketing não há mais lugar para o “desculpe, foi engano”.
Paulo Afonso Pereira – Jornalista
Mentir. Para o baba (pai) de Amir, da obra O Caçador de Pipas”, seria o único pecado do homem. Significava roubar de alguém, o direito de saber a verdade. Os demais pecados seriam derivações desse ato. Apesar de o exemplo ter sido buscado de um drama fictício, passado lá em Cabul, anos 70, a mentira continua tendo perna curta. Cada vez mais curta, em um mundo globalizado, onde a informação caminha a passos largos. Informação que tem como alicerce, o item credibilidade, qualidade oposta a da farsa e da omissão.
A informação também é bem de consumo. Uma porta, cujo ávidos consumidores buscam soluções para o insaciável prazer de praticar o moderno ato da inclusão. Seja por meio de produtos e/ou serviços. Na intermediação, está o profissional de Marketing, responsável por gerar demandas, criar necessidades, reforçar o ato do consumo e angariar clientes. Um dos canais é a publicidade – do sofisticado comercial em horário nobre até o simples panfleto distribuído nos semáforos e nas calçadas.
Há um bom tempo, a publicidade não busca apenas vender um produto e/ou serviço, mas sim valores, estado de prazer, status, estilo de vida, poder. Utilização de ingredientes simbólicos, semióticos, além de técnicas de persuasão para explorar fraquezas e potencializar desejos. Friamente, o discurso-argumento não deixa de ser uma representação, mas carece ser parcimonioso, diante de um público culturalmente consumista, que alimenta o ciclo virtuoso e vicioso do “me engana que eu gosto”.
Pena a ganância e a tremenda falta de ética atropelarem o modo tolerável de ofertar produtos e/ou serviços ao mercado consumidor. Na verdade, temos a contramão do Marketing ideal: a política de relacionamento na busca pela fidelidade. A verdade, nada mais que a verdade, tem o poder de resultar em encantamento – satisfação do cliente acima da expectativa do mesmo.
A sedução, via publicidade enganosa, engloba a falta de uma informação essencial ao consumidor. Esta prática ilegal, além de ser lesiva, ajuda a desencadear uma série de transgressões na relação consumidor/mercado. Um verdadeiro estopim. Felizmente, isso está previsto de modo “sagrado (e) está sacramentado” no Código de Defesa do Consumidor, conforme artigo 37, parágrafos primeiro e terceiro.
Praticar a publicidade enganosa em quaisquer dos itens citados no CDC: preço, origem, propriedades, qualidade, quantidade, características, natureza e outros dados sobre produtos e serviços, é pecado capital. Segundo o sociólogo Nélson Canclini, ser cidadão é ser consumidor. Partindo desse princípio, o CDC deveria ser venerado como é o alcorão no mundo islâmico. Afinal, o Código tem como princípio, o da vulnerabilidade. Equilibrar as forças. No caso, a parte mais fraca é o consumidor.
Entretanto, a bíblia do consumidor ainda é jovem, batizada em 11 de março de 1991 – seis meses após o nascimento. Filha de um novíssimo testamento, a Constituição de 1988, na qual devemos ter orgulho quanto à implantação do chamado estado democrático de direito – a sociedade chamada para participar.
O processo é lento e gradual. À medida que, o comportamento da sociedade (de consumo) muda – avança – produz uma seleção natural no mercado. Então, induzir alguém ao erro para fechar um acordo comercial, é dar um tiro no pé. Para o “marqueteiro” – que também é consumidor – significa suicídio. Resulta em destruição da credibilidade, imagem arranhada, sanções, e de quebra, o rótulo de picareta. “Deus perdoa, mas a natureza não.”
Pena a prática ser corriqueira ao explorar a boa fé (inocência) do consumidor ou menosprezar a inteligência alheia. Até quando vai durar esse vício de levar vantagem por meio do “dom de iludir”? Após a queda, a quem apele para o Advogado do Diabo. Bem, este assunto fica para uma outra “sessão”.”
